Existe uma versão da corrida dos ratos que não vejo ninguém discutindo.
Na versão original, a “corrida dos ratos” é um conceito popularizado por Robert Kiyosaki no livro Rich Dad Poor Dad. A metáfora descreve um ciclo em que a pessoa trabalha mais para ganhar mais, gasta mais porque ganha mais, e precisa trabalhar ainda mais para sustentar o novo padrão de gastos. Exatamente como um rato correndo numa roda sem sair do lugar.
Esse conceito é a referência para o texto de hoje!
Na original, descrita por Kiyosaki, o ciclo é financeiro: ganhar mais, gastar mais, precisar de mais. Na versão técnica, o ciclo é cognitivo: não saber, delegar para a IA, não conseguir avaliar, não aprender, saber menos.
O mecanismo é o mesmo. A roda gira, o esforço aumenta, e você não sai do lugar.
O pedido que você não sabe fazer
Você não consegue pedir o que não conhece. Se você nunca modelou um domínio complexo, não vai saber pedir para uma IA modelar. Se nunca debugou um deadlock em produção, não vai saber descrever o problema com precisão e clareza suficientes para receber uma resposta útil.
A qualidade do que a IA entrega é proporcional à profundidade do que você sabe perguntar.
A avaliação que você não consegue fazer
Pior que um código ruim é um código ruim que parece bom. Modelos geram soluções sintaticamente corretas e semanticamente perigosas com a mesma confiança. Se você não domina os detalhes, aceita. Coloca em produção. E descobre o custo semanas depois, meses depois, ou até anos depois, quando seu projeto enfim passa a receber atenção após muito esforço.
O aprendizado que não acontece
Aprender exige fazer, errar, corrigir, refazer. Quando você delega antes de aprender, elimina exatamente o ciclo que constrói competência.
Não existe atalho: ninguém aprende a nadar assistindo vídeos de natação.
E ninguém aprende arquitetura colando output de LLM.
O ciclo vicioso
Aqui está a armadilha:
- Você não sabe, então pede para a IA.
- A IA entrega algo que você não consegue avaliar.
- Você aceita sem entender.
- Você não aprende.
- Na próxima vez, sabe ainda menos.
Cada iteração te torna mais dependente e menos capaz de identificar o que está errado.
A IA é uma ferramenta extraordinária para quem já construiu o repertório que permite usá-la com critério.
Para quem ainda não construiu, ela não é atalho.
É uma armadilha com interface amigável.
Antes de perguntar “como a IA pode fazer isso por mim“,
pergunte: “eu saberia avaliar se a resposta está errada?“
Se a resposta for não, o próximo passo não é um prompt melhor.
É estudar.





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